Como encarar a dupla jornada de empresária e executiva?

shutterstock_129585638Por João Luiz Vieira

A dupla jornada não é novidade na vida das mulheres. Mas agora há aquelas que desenvolvem outro tipo de vida dupla: como contratada de uma empresa e, ao mesmo tempo, dona de seu próprio negócio. Alguns cuidados são fundamentais para não gerar conflitos éticos e administrar o tempo de maneira sensata. Segundo Diego Pisano, da consultoria de carreira Reflexis, quem vive ou pretende viver nessa situação de tensão constante precisa tomar alguns cuidados especiais.

“Lembre-se de que você é paga para cumprir uma determinada jornada na empresa. Usar esse tempo para resolver assuntos ligados ao seu negócio é, no mínimo, inadequado”, afirma Pisano. “Se o emprego oferece horário variável, é possível conciliar melhor as atividades, desde que o tempo total ‘comprado’ pelo empregador seja respeitado, 44 horas semanais, por exemplo.”

As duas atividades não podem ser conflitantes. “A contratada/empreendedora não pode concorrer com seu empregador, não pode usar informações confidenciais em benefício próprio nem deve roubar funcionários”, afirma o consultor. “É preferível que as atividades sejam totalmente distintas. Uma executiva de um banco pode ter uma franquia de perfumes, uma loja de roupa, um restaurante… mas não deve ser consultora financeira.”

Grandes empresas costumam ter uma área de “compliance” para evitar conflitos de interesse. O ideal é que a pessoa informe a empresa sobre seu empreendimento e tenha sua aprovação.

Um exemplo:  O filho mais velho de Christiane Pardo, Felipe, é um prodígio. Quando tinha 18 anos, convidou a mãe a abrir com ele uma escola de inglês. Os dois se tornaram sócios na UNS Idiomas, rede que conta com mais de 40 unidades vários lugares do país. Christiane, 38 anos, teve o filho aos 17. Na sequência, nasceu Tainah, 16. Até os 24 anos, a empresária nunca havia trabalhado fora – nessa época, dedicava-se em tempo integral aos filhos. “Até que decidi buscar uma profissão”, lembra. Fez vestibular e passou em Direito. Começou a estagiar aos 29. A rotina era se levantar às 6h e só se deitar depois da meia-noite. A mãe e uma babá ajudaram a criar as crianças.

No escritório de advocacia conheceu o atual marido, Marcelo Leandro, sete anos mais novo. Resolveram entrelaçar suas histórias, montaram um escritório e especializaram-se em direito trabalhista (ele) e empresarial (ela). Tudo certo, até o filho insistir que queria ser dono de uma escola de inglês. A mãe resolveu abraçar a causa. Sem curso ou treinamento, pediu empréstimo de R$ 45 mil ao pai e abriu a primeira unidade da UNS em Osasco, na Grande São Paulo. “Sem funcionários, eu era recepcionista, faxineira, tudo”, lembra.

Hoje, dois anos e meio depois, ela divide seu tempo entre os dois negócios. Fica até 15h no escritório e eventualmente vai à escola. “Administro tudo online”, explica ela, que há pouco teve seu terceiro filho, Leandro, de 9 meses. A empresa começou a dar lucro no sexto mês. Hoje conta com quase 400 alunos. Os números empolgam a advogada: ela já decidiu abrir mais unidades em 2012. Felipe está fazendo um curso de gestão empresarial. A mãe, orgulhosa, agradece.

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CHEFE PODE PERDER A PACIÊNCIA

Mesmo que o empreendimento não afete o desempenho no emprego, alguns chefes podem se sentir prejudicados com a falta de disponibilidade ou de dedicação integral do funcionário. Isso pode limitar o crescimento do profissional na empresa. Se o empreendimento crescer, demandando mais tempo, deve-se tomar a iniciativa de pedir demissão. Segundo Diego Pisano, é preciso manter um diálogo franco e transparente.

EM CASO DE EMERGÊNCIA

Se o empreendimento falhar e a pessoa quiser voltar ao mercado de trabalho, uma boa recomendação do antigo chefe é sempre algo valioso. Ele próprio pode querer ter a profissional de volta. Por isso, vale a orientação de fazer tudo às claras e manter um bom relacionamento com o antigo empregador.

“ACONTECEU COMIGO”

“Trabalhava como gerente de RH quando decidi atuar como coach. Abri minha consultoria ainda empregado”, conta Diego Pisano. “Atendia os clientes à noite e no fim de semana. Não havia conflito de atividades e não usei informações confidenciais.”

INDEPENDÊNCIA OU MORTE

Não deixe que as finanças dependam de duas fontes de renda (o salário e os lucros do seu negócio). Evite que a empresa use parte dos seus vencimentos, mesmo nos estágios iniciais – pesquise outras formas de investimento. O importante é não ter amarras caso seja obrigada a optar por uma ou outra atividade.

Fonte: PEGN
Link: http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,EMI272031-18512,00-EMPRESARIA+E+EXECUTIVA.html