red-blue-fire-16762751Quer se dar bem em uma apresentação no trabalho? Fique atento às comédias de  stand up. Essas apresentações trazem uma valiosa lição para quem,  rotineiramente, precisa encarar uma plateia no ambiente corporativo: o humor é  uma excelente estratégia para cativar o público – mesmo em períodos de  duradouros “monólogos”.“Nosso pensamento trabalha em uma velocidade quatro vezes mais rápida do que as  palavras”, afirma Reinaldo Polito, especialista em oratória e professor da  Universidade de São Paulo. “Em média, uma pessoa perde o foco da atenção a cada  seis minutos”.Nesse intervalo de tempo, você precisa trazê-lo de volta à realidade da  palestra. É aí que o humor pode entrar em cena. Evidentemente que, se a  apresentação tiver uma hora, você não irá contar 10 piadas apenas para seguir o  ritmo da desatenção da plateia.

Na medida certa, o bom humor pode liberar a resistência dos ouvintes e torná-los  mais receptivos aos seus argumentos. Além disso, em alguns contextos, como em  uma reunião com a diretoria da empresa, ao se materializar em observações sutis  e levemente irônicas a presença de espírito pode ser uma demonstração da sua  própria inteligência e um elogio à inteligência da plateia, segundo o  especialista. Mas essa estratégia requer limites também.

Confira as dicas de Reinaldo Polito  para usar o bom humor na medida certa durante as apresentações no trabalho.

1. Não aposte tudo no início

Sob a justificativa de “quebrar o gelo”, há quem logo nos primeiros segundos da  apresentação esboce alguma piada clássica. Se você é adepto dessa prática, sinal  vermelho. Essa estratégia pode levar a um cenário de auto sabotagem perversa.

No início da apresentação, os níveis de adrenalina tendem a estar mais altos e a  insegurança ficar latente. Por conta disso, se a reação da plateia à brincadeira  for frustrante logo de cara, caso a reação da plateia à brincadeira não for  positiva, todas as suas estratégias para cativá-la podem ficar comprometidas.

“Se a piada não tem graça, você ficará desestabilizado”, diz Polito. Prefira  deixar as piadas mais clássicas para o meio da apresentação, quando sua  segurança já estiver consolidada.

2. Use o contexto

Por conta desse fator, o especialista aconselha que o ideal é deixar as piadas  prontas de lado e recorrer a fatos engraçados do contexto da apresentação.

Recentemente, Polito aproveitou um fato anterior à palestra para pincelar com  bom humor sua apresentação. “Contei para a plateia que minha esposa não tinha  acreditado que eu daria duas palestras naquele dia e pedi para que eles  deixassem eu tirar uma foto do auditório para provar para ela”, diz.

“Eram cerca de 800 pessoas e eu pedi para que eles se ajuntassem porque todos  não estavam cabendo na foto”. No segundo seguinte, todos estavam às gargalhadas.

Se as 800 pessoas presentes não tivessem rido, Polito seguiria a palestra sem  culpas já que, ao contrário de piadas que miram e até exigem risadas,  comentários ou brincadeiras relacionadas ao contexto da apresentação devem ser  feitas sem esse tipo de obrigação.

3. Atenção para a fronteira com o vulgar

Cuidado para não se empolgar além da conta e fazer da sua apresentação uma  verdadeira apresentação de stand up. Mas os exageros com os comentários  engraçados não são apenas quantitativos.

“Imagine que existe uma linha separando humor e vulgaridade. Quanto mais perto  dessa linha, mais humorado”, explica Polito. “Mas você também começa a se  aproximar da vulgaridade”.

Dependendo das circunstâncias, afirma o especialista, isso pode colocar sua  reputação em xeque. Então, desacelere. Por mais divertidas e cativantes que  sejam as investidas em comentários próximos a esse limite, o ideal é manter uma  distância que mantenha sua imagem profissional em segurança.

4. Leve em conta a cultura do público

Não dá também para fazer uma apresentação sem analisar, em minúcias, as  características da plateia. A piada pode até fazer sucesso na mesa de bar, mas  nem sempre (ou quase nunca) terá a mesma acolhida com o conselho de  administração da sua empresa, por exemplo.

Mais: diferenças geográficas e culturais também pesam como termômetro para o  humor. Em março deste ano, o presidente mundial do Burger King, o brasileiro  Bernardo Hees, foi ‘vaiado’ pelas mulheres britânicas exatamente por escorregar  neste ponto.

Em uma palestra na Universidade de Chicago (EUA), ele comentou que as britânicas  não eram tão atraentes. A mídia do Reino Unido repercutiu o comentário.

Horas depois, o departamento de causas femininas do centro acadêmico da  Universidade de Warwick publicou a seguinte nota: “Se ele enxerga as mulheres  como uma distração em potencial na academia, como ele as vê no ambiente de  trabalho?”

5. Seja claro nas expressões

Após terminar um comentário engraçado, não é necessário se justificar com a  clássica frase: “Foi brincadeira” ou a variante “brincadeirinha”. De acordo com  o especialista, o caminho é aguçar o teor das suas expressões corporais para  deixar claro de que se trata de uma brincadeira. “Tem que fazer uma careta, afinar a voz ou mostrar um gesto mais espetacular”,  explica Polito.

A audiência precisa ter certeza de que você não está falando sério. Segundo o  especialista, o ideal é intensificar isso quanto menor o nível de instrução da  plateia. Aqui, o mestre do humor Charlie Chaplin e sua maneira caricaturata de  provocar risos pode ser uma boa inspiração – mas com limites, claro.

Agora, se um oponente (daqueles que curtem puxar o tapete e colocar você em uma  fria) estiver na plateia, hiperbolize essa postura. Você não pode dar brechas  para que ele solte o verbo contra você apenas porque fingiu não entender que era  apenas uma estratégia de presença de espírito.

6 Treine, treine e treine

“Piada tem que ser contextualizada. Ela tem que ter timing”, diz Polito. E, por  isso, não cabe abrir a apresentação no trabalho sem treinar antes cada detalhe  do seu discurso – inclusive os espirituosos.

O especialista explica que vale testar as piadas ou comentários engraçados com  outras pessoas antes da apresentação. Se não der certo com elas (se elas não  acharem graça), lime esse ponto do seu discurso.

7. Não banque o comediante

Agora, se na vida real (longe dos holofotes das apresentações corporativas) você  é pouco espirituoso, não vale mudar água para o vinho apenas porque está no  centro das atenções. Você precisa ser autêntico e natural durante cada segundo  do seu discurso.

De acordo com o especialista, apesar de ser uma ferramenta, o humor durante as  apresentações não é um mandamento. E se usado de maneira hiperbólica, pode até  virar um deslize épico.

“Não é uma obrigação. Cada um tem que usar o que tem de melhor”, diz Polito.

Fonte: Revista Exame